quarta-feira, 15 de outubro de 2008

mentiras poéticas

Escreveste em certas letras
tanto amor mal cabido,
tantas horas desperdiçadas,
em perpétuo sono mal dormido.
E espezinhaste tua felicidade.
Pisaste em solo arenoso, dúvidas.
Confessaste teu mal-estar.
Sem saber e outras vezes tão sabida.

Disseste tanto e tão pouco
da realidade pronunciada
Que em palavras nada se fez tempo
Nem fato. Apenas algoz.
Ilusão, sim, amalucadamente dita.
Temida em verso e prosa de nós,
Pensava ser verdade a leitura aflita.
Lia, pois, a decepção anunciada.

Que dirás agora?
Que nem sílabas cabem em ti.
De tão pequena, sem metáforas.
Quem sabe “se”, ou “mas”... ou "sim".
Difícil argumento sem poesia.
Concretude sagaz,
outrora experimentada.
Voltaste a ela e nela permanecerás.

Percebeste além, talvez,
Da vida a diversidade.
O que se constrói com tempo,
em poucos dias não se desfaz.
Ou com palavras.
E há o que não se constrói.
Em tuas linhas não lerás
(espero, nunca novamente)
ilusões e vontades.

Reza o bom poeta
que mentiras não têm lugar.

O repleto

Amanhece.
E do vazio comum da aurora,
Abunda o repleto.
Prenúncio do fim da falta,
Espaços preenchidos,
útero, poros, coração.
Clara luz de arrepio,
ventígena luminosa
propaga-se misteriosamente
desenvolta no vácuo de mim.
Como fosse possível
resgatar-lhe o fôlego
onde já não havia (nem houve).
Ou roubar-lhe o oxigênio.
Ainda misteriosa,
Extorque e repõe novos ares.
Deixa-os novos ou ilude.
Que aos olhos do poeta,
é sempre amanhecer.
Brisa não recorre,
nem claridade.
O sol nasce outro
e novamente, outra vez.